Peça do Mês

O Museu Municipal de Espinho (MME) possui no seu acervo várias peças das coleções da antiga fábrica de conservas Brandão, Gomes & C.ª, da Arte-Xávega e de algumas unidades hoteleiras e indústrias de Espinho, que provêm de doações. A "Peça do Mês", é mais um motivo de descoberta das coleções do MME, sendo esse o sentido que damos ao nosso património cultural concelhio.


PEÇA DO MÊS | abril de 2021

BARCO-DO-MAR

NÚMERO DE INVENTÁRIO: MME-02-0265
MATÉRIAS: MADEIRA/FERRO
CORES: BRANCO, AMARELO, VERMELHO, VERDE, AZUL E PRETO
DIMENSÕES: 797 mm x 2460 mm x 2920 mm
COMPANHA BOA UNIÃO
MATRÍCULA: P-206-AL
PROVENIÊNCIA: DOAÇÃO DE JOAQUIM GRAÇA
RESTAURO (2009): Construtor Manuel Felisberto Amador

A arqueologia naval considera que o barco-do-mar, as bateiras de pesca e os barcos moliceiros da Ria de Aveiro pertencem todos à mesma família de embarcações: a das canoas de tábuas em forma de meia-lua. Na sua construção nota-se a influência direta do tipo de mar (Atlântico), da rebentação e da violência das ondas, da praia arenosa, da agilidade das manobras e sua tripulação, das artes e das espécies a capturar. 

No século XVIII operou-se uma transformação nas formas de pescar na região Norte e Centro de Portugal. Isso resultou da introdução de um novo tipo de pesca diferente das pequenas artes (redes) designadas por "Chinchorros”, utilizando uma grande rede de "cerco e alar para terra” e com a formação de companhas munidas de barcos muitos curvos, em forma de meia-lua, designados por "Barcos-do-Mar” (de Espinho até Mira) ou "Barcos-da-Arte” (da Figueira da Foz até Vieira de Leiria) – embarcações completamente diferentes dos barcos-da-xávega algarvios e andaluzes, que não utilizam portos e são capazes de varar e de atravessar a rebentação.  A partir dos anos 80 do século XX, com a motorização dos barcos, o abandono do arrasto por juntas de bois e o recurso à tração mecânica, foram introduzidas novas modificações nos barcos-do-mar.

 A sua construção era uma cadeia operatória constituída por dezoito fases, que foi revista com o processo de motorização. A madeira utilizada é o pinheiro bravo ou manso e alguns construtores utilizam o carvalho para a roda da ré. Os remos, com a dimensão de 8,4 metros, são feitos de eucalipto e servem para equilibrar o barco quando as ondas são de maior dimensão e para substituir o motor quando se dá uma avaria. Por norma, são pintados no mínimo com três cores à escolha e possuem símbolos relativos às companhas a que pertencem. Depois de construído e pintado, o barco era benzido antes de ir para o mar. Para o efeito, o padre da freguesia deslocava-se à praia e fazia uma pequena cerimónia religiosa da bênção dentro do próprio barco – ocasião que era também aproveitada para escolher uma jovem rapariga das famílias dos pescadores como madrinha da nova embarcação. Atualmente os barcos-do-mar são construídos pelos poucos mestres carpinteiros que ainda se dedicam a este ofício, concentrados em Mira e Pardilhó, duas localidades do Distrito de Aveiro.



PEÇA DO MÊS | março de 2021

RAPICHEL

NÚMERO DE INVENTÁRIO: MME-02-0408
MATÉRIAS: REDE/FERRO
DIMENSÕES: 495 mm (diâmetro) x 1640mm (altura)

O rapichel ou redanho é um utensílio utilizado para transporte do pescado, constituído por um pequeno saco de rede fixado num aro de ferro circular. Transportado por dois homens (pescadores) de terra com o apoio de um bordão, era um aparelho muito usado nas práticas ancestrais de pesca, como é o caso da "Arte" e da "Arte-Xávega".

"Metem-se alguns homens nessa massa palpitante, mergulhando nela os pés bronzeados, e às pazadas, separando aqui e além alguns peixes, vão enchendo os rapichéis ou redanhos, espécie de cestos de rede em que dois homens para cada um deles levam a colheita para a estender na areia, onde as mulheres fazem a escolha."

Miguel de Unamuno, "A Pesca de Espinho", agosto de 1908



PEÇA DO MÊS | fevereiro de 2021

CONSERVA DE PICKLES EM VINAGRE 

NÚMERO DE INVENTÁRIO: MME-01-0538
MATÉRIAS: VIDRO/PAPEL/CORTIÇA
DIMENSÕES: 150X68 mm

A conserva de pickles, produto tipicamente inglês, mereceu um tratamento especial por parte da Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & Ca. Lda., com os seus administradores a contratarem em 1901 o especialista William Jones, que veio de Inglaterra para Espinho propositadamente para o fabrico dessa conserva. De acordo com os catálogos dos produtos, os pickles Brandão, Gomes eram confecionados com vegetais em puríssimo vinagre de cevada e com condimentos escolhidos. A mostarda foi outro dos condimentos utilizados na confeção deste esmerado produto.  Em 1905 os formatos dos frascos e dos meios frascos, com rolhas de cortiça, variavam entre o redondo e o quadrilongo, e a publicidade ao produto aconselhava os consumidores a guardarem os frascos de pickles em lugar fresco e de pouca luz, sem o invólucro de papel. A luz tirava ao conteúdo a sua cor primitiva, dando-lhe um aspeto menos agradável.

PEÇA DO MÊS | janeiro de 2021

CADERNO DE CÁLCULOS Nº1 DA FÁBRICA DE CONSERVAS BRANDÃO, GOMES & Cª Lª 

NÚMERO DE INVENTÁRIO: MME-01-0021 
DIMENSÕES: Comprimento 170mm; Largura 130mm; Espessura 30mm  

Caderno produzido pela firma Araújo & Sobrinho, Sucursal fundada por Manuel Francisco Araújo no ano de 1829, na cidade do Porto (ainda em atividade, sendo das papelarias mais antigas de Portugal), com o nº de referência 2253 na data de 3 de dezembro de 1920.  
Caderno de capa dura, lombada e cantos de cor dourada e centro de cor bordeaux. Ostenta ao centro um "selo” de cor vermelho debruado a dourado onde se pode ler "CALCULOS, Nº1, Brandão Gomes & Cª Lª Espinho”, com 128 páginas. 
As páginas estão divididas em cabeçalho com linha de cor azul, uma linha de cor vermelha e 26 linhas de cor azul, sendo divididas em 2 colunas por uma linha de cor vermelha. A Coluna da esquerda é usada para observações e a da direita para cálculos gerais. 
Neste caderno estão descriminados todos os cálculos realizados pela empresa Brandão, Gomes & Cª Lª, para chegar ao preço médio final de uma lata de um determinado produto. Aqui são calculados a quantidade/preço de matéria prima, o tempo (custo hora) para realizar cada fase no processo de laboração, assim como o número de operários/custo necessários para cada fase do processo de laboração de cada produto. A soma de todos estes cálculos determinava o custo médio de cada produto.